O poder do vínculo afetivo no trabalho

Acordar pela manhã e ir trabalhar nem sempre é fácil, e muitas vezes há muita ansiedade, medo e tensão pelo que nos espera. Isso gera um estresse e uma sensação absurda de que não daremos conta. Quando eu estava no mundo organizacional, toda vez que esses sentimentos apareciam, eu pensava: “Vou procurar outro emprego! Não dá mais”.

Quantas vezes preparei meu Curriculum, mas na hora “H”, desistia de enviá-lo. Por quê?

Porque quando eu chegava no trabalho, logo encontrava o Ricardo. O Ricardo era um colega dos mais “antigos” e sempre que nos encontrávamos nos corredores da empresa, erguíamos o dedo “em riste” e dizíamos “Ólhaaa!”. O quer isso queria efetivamente dizer, não sabíamos! Mas ríamos dessa brincadeira que nos trazia leveza e alegria.

E o Marc, colega e chefe que vez por outra me dava um “susto”, quando eu estava concentrada em algo. Ríamos disso e seguíamos com nossas responsabilidades, mas mais leves por aquele breve instante de descontração.

E tinha a Viviane, a quem eu chamava de “cabeção”, apelido que reciprocamente nos chamamos até hoje, estabelecendo um vínculo alegre e descontraído.

Além dessas pessoas, haviam outras cujas descontrações eram simples e corriqueiras, mas que que contribuíram muito para que eu ficasse três décadas em uma organização. Esses vínculos afetivos aliviavam as tensões, estimulavam o bom-humor e traziam sensação de pertencimento. 

Por isso eu não enviava os Curriculuns, pois na hora “H”, eu valorizava o ambiente que eu mesma ajudava a promover.

Vínculos afetivos geram resiliência

Ao criar vínculos, criei também resiliência para enfrentar os momentos difíceis, superar desafios e enfrentar momentos de baixa motivação, onde nada parecia acontecer.

Me apoiei nos vínculos para encontrar soluções para aquilo que eu não sabia resolver sozinha, para trocar experiências e aprendizado, para receber feedback e ter resiliência com o que eu não podia mudar.

Tudo isso foi fundamental para a construção de uma carreira que abriu as portas do mundo e me permitiu crescer pessoal e profissionalmente.

Sai da empresa, porém até hoje tenho contato com a maioria dessas pessoas, pois o trabalho muda, transforma e desaparece, mas os vínculos não. Eles transcendem.

Por que Vínculo é importante para o indivíduo e organização?

Criar vínculos é uma necessidade biológica, emocional e social. Somos seres sociais por natureza. A questão é que pensamos quer ser “profissionais” é distanciar-se dos sentimentos e das emoções, quando é justamente nelas que está nossa capacidade de superação.

Por maior que seja nossa inteligência, competência e conhecimento, não conseguimos fazer nada, absolutamente nada, sozinhos. Dependemos uns dos outros e quando conseguimos criar um ambiente ao nosso redor que promove bons laços humanos, alcançamos as condições psicológicas e emocionais necessárias para superar os desafios do cotidiano, por mais difíceis que eles sejam.

As organizações que promovem a criação de vínculos entre seus colaboradores têm um ambiente mais produtivo e engajado. As equipes trabalham mais fluidamente e com mais propensão ao diálogo, mesmo em momentos de confronto. Organizações com essa cultura, tem um desempenho organizacional acima da média.

A promoção desse tipo de cultura é formada com apoio da alta gerência, e com a promoção de eventos sociais, atividades institucionais e ações sociais de impacto na comunidade, com envolvimento e participação dos colaboradores.

Laços humanos líquidos

Vivemos em uma sociedade onde o amor, os laços humanos, a liberdade e a segurança são líquidas, o que quer dizer, passageiros, fugazes. Inclusive no ambiente de trabalho.

Zygmunt Bauman trouxe a ideia da fluidez dos sentimentos e dos relacionamentos, e em entrevista a respeito deste tema (https://youtu.be/LcHTeDNIarU), ele menciona que o conceito de “redes” é algo obviamente novo, substituindo o conceito de laços humanos e comunidades até então existentes. “A comunidade precede você, você nasce em uma comunidade”, disse ele. De certa maneira, quando criamos bons laços dentro do ambiente organizacional e ali nos desenvolvemos, de fato nascemos naquele lugar, ou pelo menos, nossa carreira e nosso futuro nascem naquele ambiente

Não defendo que um indivíduo deva permanecer “x” anos em uma organização, ou até mesmo ter sua carreira em um só lugar, mas defendo que uma pessoa deva criar bons laços onde quer que esteja, e por quanto tempo esteja, e a organização deve promover essa cultura.

Esse é o caminho para resiliência e enfrentamento dos desafios que qualquer ambiente organizacional traz, principalmente nos dias de hoje, onde tudo flui e se transforma com uma velocidade surpreendente. Assim como o tempo, se não prestarmos atenção, os laços também escorrem pelas mãos.

Vínculos à distância e ocasionais

Mas alguém pode pensar: bom, manter e criar vínculos afetivos nos dias de hoje, que caminha cada vez mais para o virtual, é quase impossível.

Não, não é! Mesmo que os trabalhos se tornem em sua maioria virtuais, haverá sempre ocasiões e oportunidades de encontro pessoais. E nessas oportunidades, podemos estreitar laços, pois estes não estão necessariamente atrelados ao contato físico diário.

Nesse meu trabalho, eu viajava duas vezes ao ano para a casa matriz para participar de reuniões com a minha área. Ali, por quatro dias, duas vezes ao ano, eu encontrava pessoas de culturas diferentes – Inglaterra, França, Alemanha, Austrália e Singapura, com quem tinha relacionamento virtual no restante do tempo. Porém, nesses poucos dias, estreitávamos nossos laços e no restante do ano, isso era suficiente para manter um relacionamento produtivo, de ajuda e cooperação. E confiança.

Como construir vínculos

Vínculo afetivo não está limitado ao espaço e nem ao tempo. Ele simplesmente acontece quando assim o desejamos, e quando temos a capacidade de construir “pontes”, estabelecendo assuntos de interesse comum. Apesar das diferenças, todos nós temos algum interesse ou circunstância em comum, seja esporte, artes, cultura, espiritualidade ou até mesmo as banalidades do cotidiano. Tudo pode virar um bom início de conversa e estabelecer “pontes” de conexão.

Lembro de uma pessoa muito séria, com quem eu me encontrava ocasionalmente e cuja resposta às minhas provocações de conversa eram apáticas. Até que um dia, descobri que ele adorava motos. Eu também, e aos poucos, fui trazendo esse tema para nossa conversa até que ele se abriu e estabelecemos um ponto em comum, e tempos depois, nossas conversas evoluíram da moto para viagens, para coisas do cotidiano e hoje, quando nos encontramos, é sempre um papo alegre, descontraído e bom.

Porém, um vínculo acontece acima de tudo, quando temos um genuíno interesse “no outro”. 

Respeitando as diferenças e criando vínculos

Esse interesse pode ser despertado pela consciência de que não conseguimos fazer nada sozinhos, e que juntos, somos maiores quando podemos contribuir um com o outro. Quando respeitamos as diferenças e as usamos em favor do fortalecimento do autoconhecimento, da empatia e do respeito, estabelecemos vínculos produtivos, que contribuem para nosso desenvolvimento pessoal e profissional.

Liderança empática

Passamos a maior parte do tempo no trabalho e nele estão nossos maiores desafios e dores, em sua maior parte, criados pela má qualidade das relações entre colaborador e gestor. Para melhorar a qualidade dessa relação, sanar nossas dores, dificuldades e pressão, é necessário criar um vínculo genuíno que promova a confiança e o engajamento. Bons líderes, aqueles que inspiram, motivam e geram resultados através de uma equipe engajada, sabem disso. Eles trazem para o trabalho o melhor de si e são essencialmente humanos em suas relações interpessoais, sendo capazes de expressar um interesse genuíno no outro, pois entende que boas relações geram confiança e engajamento, promovendo bons resultados.

Claro, outras competências são necessárias para o alcance de bons resultados, mas o começo está na qualidade das relações que estabelecemos como nossos colaboradores, pares e gestores.

Quando olhamos para nós mesmos e colocamos em prática nossa habilidade de nos conectarmos, criamos uma rede saudável de apoio e autossustentação. E nos desenvolvemos.

Isso está em nossas mãos, afinal criar laços depende de nós e do outro, e não da organização.

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